quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Anjo


Debaixo d'água,
As tuas asas molhadas,
A tua face corada,
O teu coração
Que palpita.

De pés descalços,
Os olhos fechados,
Meus braços abertos...

Tudo sempre tão perto
Entre céu e oceano,
As caravelas, o começo.
Toda jornada um princípio,
Todo sonho um passo,
Um precipício.

As aventuras inesperadas,
A estrada que nos consome,
O fim da linha do horizonte,
O céu que desatina
Tuas idéias aceleradas
No instante da palavra;
As nuvens,
Teu pertencimento.

Eu cresci assim,
Sem dar conta,
Meus muitos livros
Se reescrevendo;
Te achei na altura
De um jardim,
Acompanhei teus passos,
Ouvi teus cânticos
Enquanto as colunas de Babel
Se desfaziam uma a uma.

Falei da tua língua,
Provei dos teus lábios,
Podei tuas queixas e dores
E te deixei esta herança,
Um sonho, uma flor, uma canção:
A um toque do sol.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Um passo, um tropeço, um espaço


O espelho dos espelhos,
O verso, a palavra.
Toda a tua busca
Que se cala na alma,
Todos os teus anseios
Ao despertar dos sentidos.
Os olhos que não se me escapam,
Os gestos devaneios,
Esse riso ao teu lado,
As ruas dos destinos
Que se nos atravessam
Não disfarças,
As vozes do tempo
Que sequer vivemos.
As linhas juntas,
O instante ao contrário.  
Conto as horas
Do avesso,
Conto os dias
De sol das chuvas
Que o verão me trouxe,
Conto as chamas e fagulhas
Que o vento assobia.
Visto as roupagens do silêncio,
Encarno a terra comida pelas beiradas,
O chão seco do que não é sertão e se alumia.
Nefertari se esconde,
As esfinges lhe consomem,
As três luas de Plutão
Estão sem órbita.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Ao levitar


Eu canto aqui o tempo
Das amarras que a gente solta,
Dos cadarços que se afrouxam,
Desses botões que vira e mexe
Se desprendem da vida da gente.

Eu canto a verdade
Das perspectivas do silêncio,
Das cartas que se embaralham,
Dos lances e dados que se atiram,
Do limiar das escolhas
A que o destino nos leva.

Eu canto o barulho da chuva
Que lava toda as coisas,
Que cai aí pertinho
Dos teus ouvidos,
Que te consome
Todo dia um pouquinho.

Eu canto às vidas
Que tu trazes ao mundo
E enterras antes do sol;
Que sangram no ventre alheio
Da insensatez,
Que se perdem
Antes mesmo
D'um sorriso.

Eu canto
O cântico suave
Da despedida
Dos tornados...

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Eu leitor do instante

Que o tempo escorre
Na paisagem,
Que os encontros
Mais se fazem de silêncios.

Contemplar,
A leitura das leituras
Que não se leem,
Os olhos,
Sempre os olhos,
Que enxergam além.

Horizonte,
O sol que se derrama de ti
Assim poente.

As palavras mudas,
As inquietações,
As partituras.

Nossas mãos que tocam o ar,
O verbo que o teu sorriso escreve
No canto dos lábios
Do que a boca
Não diz...

Fica aqui esse instante,
Sê poesia nos meus dedos,
Nos cabelos, nos meus seios.

Rouba essa minha sensatez
Que nunca existiu,
E veste da minha pele
O contorno da tua.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Tura mali


Nefelibata,
Tropeço entre nuvens
Nos caminhos do céu.
Faço dos meus sonhos
Desenhos, faço deste palco
Um castelo de chuvas.

Escorro ao mundo dos mundos,
Toco a terra molhada,
Afago as raízes
Deste sol
Que me é espelho
E brota de dentro
No contorno do sorriso.

Fico deitado
Na grama ao teu lado,
A não contar as órbitas
Das preces e dos sonhos,
Da pressa dos presságios
Do possível das estrelas
Dos teus olhos...

Ao teu corpo, o meu deserto:
Sê tempestade e me encharca,
Corre e me enfeitiça
Por estas dunas...
Sê vendaval
E me consome
Ao virar da ampulheta.

Pega estes versos
Em areia e pergaminho
E sopra-os ao vento.

Faz vingar o nosso oásis
Em que a sede do toque
E o compasso do abraço
Se perpetuam ao balançar
Das palmeiras.

Faz do meu corpo
Paraíso,
Enquanto ele
se fragmenta
Com o teu.

Faz desse meu tempo
Um só universo
Assim, assim,
Juntinho do seu.

domingo, 29 de julho de 2012

De sóis e mares


Cortejo o teu corpo,
Cortejo os teus lábios,
Cortejo a tua pele,
O teu afago, o teu gosto,
O teu riso, o teu cheiro.

Horizonte.
Salga a minha boca
Com teu gosto de mar,
Toca aos meus olhos
Esse teu rosto de sol.

Cristaliza
Esse desejo
Que nos consome
Até os ossos,
Que nos prende
E liberta
Em espasmo.

Mata essa sede
De mergulhar na tua órbita,
De calar esses anseios
De tus ojos en blanco.

Faz desses meu versos
Céu e melodia,
Leva-os num barquinho
Até o limiar
Dos silêncios...

Murmuras então,
Por entre esse Jazz
Das estrelas de Calíope,
E vem cá me fazer
Um cafuné,
Minha morena.

domingo, 17 de junho de 2012

De Gnomos e Fadas


Tenho três órbitas,
Um anel, uma história.
Tenho uma ideia,
Uma expectiva,
Um anão de jardim.

De repente palavras,
de repente silêncio;
Que preenche,
Que escolhe,
Que tece tua leitura
em partituras
Que só tu podes
Ouvir e tocar.

Tenho esse poema,
Feito, refeito, contrafeito,
Apressado, rarefeito...

Tenho essas saudades universais
Dos lugares das pessoas
Dos tempos das ideias
Que Morfeus me traz,
Dos versos inscritos na pele,
Dos lábios a versar ao pé-do-ouvido.

Tenho essa serenidade pulsante
Que observa de olhos fechados,
Que cala e transborda
E caleja meu corpo
Em versos e palpitações.

Tenho um conto,
De Gnomos e Fadas,
Que ainda não escrevi.