quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Uma flor

Existe um jardim nos céus do mundo onde se falam todas as cores e as cachoeiras se derramam entre nuvens. As flores vêm e vão, entre os ventos, entre os tempos. A terra gira lá embaixo sob um teto de pétalas. Dizem que você só precisa fechar os olhos para encontrar esse lugar, outros dizem que você tem de atravessar até o outro lado de um estado ou de um planeta. Eu apenas me deixei flutuar, um dia, na história de uma flor.

Acordei quietinho nesse dia, o mundo como sempre girando apressado com todos os seus barulhos e compromissos e gravitações. Parei pra pensar enquanto minhas pernas andavam se havia algo que eu estava esquecendo. Tenho uma arte singela de não me lembrar dos elementos materiais, especialmente daqueles que abrem as portas. Não sei direito se pulei o muro ou estendi uma corda pra descer de casa. Sei que havia uma viagem que eu não podia perder.

Uma viagem, sim, pois as viagens transformam você. O simples ato de se aventurar pelo mundo te traz frases e imagens que você jamais encontraria sem sair dessas rotinas que nos acostumamos a chamar de lar. Porém, em todo lugar há rituais que devem ser seguidos. O corpo e o espírito não negam que há um ritmo neste universo a cada vez que você cruza seus olhos com alguém.

Sei que viajei para encontrar as montanhas, para chegar um pouquinho mais perto do céu antes de mergulhar entre as nuvens. Sei que ouvi uma frase, entre todas a mais inesperada. Sei que encontrei sua flor sobre uma rocha à vista do vale, por um instante em que deixei os pudores de lado e me aventurei a fazer tudo aquilo que meu espírito pedia. Liberdade, essa sede que nos consome e faz brotar entre as rochas, que nos conecta no topo do mundo. O destino entre ir ou ficar só faz sentido com um sorriso.

Não sei ao certo se sonhei quando colhi essa flor. Sei que olhei para o céu e havia um incêndio, sei que senti em minha língua o gosto de pétalas de fogo. Sei que em algum momento eu estive lá em cima, entre as águas e as nuvens, e quis ir além. Sei que a sua flor está nas minhas estradas, independente dos anos, histórias e caminhos. Sei que tudo o que tenho a te dedicar nesta página é um instante...  

...de minha flor. 

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Lábios em versos

Sabe, eu escreveria
Uma poesia
Em você
Intensa,
Surreal,
Inebriante...

Só que
Pensando bem,
'Cê já é escrita
De gente e poesia,
Não cabe
Só em uma.

Então,
Quem sabe
Nós se escrevia
Todo dia um poquim
Pra mó da gente drumi
Enroladinhos
Com os zoio d'alma
E mistérios da boca
Ni nossas poesia

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Você que me permite ser

Suspiro-espelhos

"Pois seus olhos não tem como 
maior função enxergar
senão pra te guiar
 ao reflexo dos meus"

Espelhos-silêncios

"Para vez ou outra encontrar
nosso oásis entre as marés
das areias
do tempo
dos desertos"

Silêncios-de-Beijos

"Eis que as regras
quebraram-se
outra vez,
ao serem escritas
na rebeldia
da nossa pele
de palavras
cruzadas "

domingo, 12 de outubro de 2014

Beija-flô

A minha flô
Fala
Das minhas
Línguas
Em suas linguagens
De flô,

Como a primeira Eva
Dessas prosódias
Meio Caetanas
Que roçam
No céu
Da boca,

A fala
Da minha língua
Avoa corada
Entre seus lábios
De flô.

"Pra mó de nós
Prosear mais
Um poquim."


segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Entre a noite e a cidade

Safadas,
As saudades

Que caem
Na gente

Feito gotas
De chuva;

Estáticas,
Se movendo,
Ao contrário.

Dessas
De parar
O tempo,

De virar
A ampulheta...

Dessas
De te trazer

- Ao fechar dos olhos -

Pra bem perto
De mim...

E deixar
Tudo mais leve

Nos silêncios...
Da nossa tempestade.


segunda-feira, 9 de junho de 2014

Valquíria

Você...
Me confunde os sentidos.

Cavalguei no fim deste mundo
Entre o silêncio e o mar,
De janeiro a janeiro,
De minuto a minuto
Ao cruzar dos olhos
Para te encontrar.

Pintei um quadro do universo
Em você,
Ao te tocar
Com minhas palavras azuis.

Escrevi meus pecados
Com cheiro de canela,
Ao contornar
Os teus lábios.

Provei o gosto
Do fogo
Em tuas bocas
De sol e lua.

Provei do meu próprio sangue mordido
Entre teus beijos, teus abraços, teu afago,
Teu desejo de ser sol, aqui, comigo.
  
Encontrei
Em você,
Por entre tantas
As páginas,
Um instante, uma vontade
De navegar até esse mundo acabar...

Por entre o silêncio e o mar. 

quinta-feira, 20 de março de 2014

Das portas abertas

Todos os dias, meu bem, o tempo se derrama em nuvens como se fosse mar. Tua flor é tempestade, tua água escorre de todos os céus.  Do alto do desse  mundo , eu sou o presente que você me deu. No silêncio desses dias que murmuram cores de carnaval, no compasso das trilhas que caçamos pelo horizonte, na carne desse campo que você, de repente, abre no meu peito.  Eu deixo entrar o sol. Escrevo teus passos na lua. Enceno o teu olhar ao assobio do vento. Encarno em mim todas as frases do litoral ao acordar desse mundo. Fico com o gosto praioso da valquíria ao beber de minhas fontes enquanto cavalgo a noite sob a benção de Kali.

Atravesso a aurora.
A pele trepida.    
Sou Eos.