Momento funâmbulo

Lê-se,
como por onde,
como quem vaga
por essa vontade,
insana vontade
de escrever
pela física
dos dedos,
por seu impulso
e movimento.

Sem bem saber
o que lhe bem dizer.

Pois em necessidades pendulares vai o equilibrista, saltando os preâmbulos, os sonhos em pirofagia, a mágica de Loki que perpassa a melancolia incinerante e submerge os palavreares em horas inexatas. Eis que surgem mais fûnambulos, segurando pincéis e vestindo sorrisos, na ponta de cada corda um par de pés ou de asas. Flutuam, no traçado aéreo do invisível, acima do palco principal, e mergulham no ar num instante emudecido. Os pincéis se soltam, os fogos mudam de tom e o pirófago mal tem tempo de assimilar o mundo a explodir em pirotecnia com seu jeito sonhoso de sentir e calar.

Mas afinal, quem não se perde ao contemplar coloridos os malabares da vida?

Líbero viajante em prece.

Brisa, vento e litania. Areia em grãos de prosa, cujo clamor é o som da tarde, o gosto da tarde, o desejo que não arde nem cala em tua alma. O porquê é injustificado, a sorte é talvez o maior de teus pecados ao não esperar nada do mundo além de humanidades. Convicto estás, por entre o fulcro do esquecimento e das lembranças ousar atravessar, ousar extravasar, ousar extenuar essa aflição que te corroe corpo e pensamento, que te queima e torna chama e te impele a viver em algo, em alguém, em você, em ninguém, em Mim, em Deus, em nós, nós, nós sequelados, nós dilacerados pelas amarras da razão, nós entreabertos por essas chagas que atravessam as ondas da inexatidão e reverberam em fantasmas e inércia; nós que supraexistem em imaginações, nós que silenciam e se fecham quando estou ao teu lado, nós que são mais do que eu poderia sonhar, temer, compreender, nós que somos muito mais do que eu jamais poderia esquecer.

Pois como diz o Frank "Fear is the mind killer; the little death that brings obliteration."

Feita de Instantes

Como que olhasse,
sem nada dizer
ali quietinha;

Como se falasse,
com aqueles olhos
feito perspectivas;

Como te ouvisse
entre teus desfoques
de-sentidos-só,

D'imagens-só, visse -
nessas tuas palavras;
estáticas-móveis.

- Sonhastes ter asas,
estática, só...

Instantes, sentidos;

Olhares, perdidos
Sonhos entre nuvens,
extásicas, só!

Silente sorriso,
olhos de momento -
photo, fotográficos.

- Como que vivestes
em eternidades,
trouxestes a ti,

Brisa, de teu mundo
De cantos e encantos
E anônimas idéias.

Continuidade em recortes...

Vontade, vontade
de ver quem tá lá
do outro lado do mundo.

Fiquei pensando nisso hoje,
enquanto tentava definir
a linha tênue
do que compõem saudades
ou necessidade...

As primeiras,
em ponteiros.
Um relógio e suas voltas
e voltas e sempre elas voltam;
voltam para o mesmo lugar,
como que análogas de continuum
e memórias circundantes.

A segunda,
uma abstração,
um instante com você imóvel
num ponto específico.
E por entre transitoriedades mais que inexatas,
eis que uma eternidade
de repente te sussurra:

"hey, acho que preciso dum outro universo!" -

E você vai guardando, essas palavras
que viram fatos-fotos e idéias
de sonhos e beijos e abraços...
Que quando veem,
já foram despertadas
nas lembranças momentâneas
de outras incógnitas anacrônicas,
a andarem por aí
fazendo Tic-tac
e mascando imaginações;

E talvez, talvez,
algumas delas
guardem as tuas amarras
em fitas vermelhas,
escondendo assim as engrenagens
capazes de reorganizar
essas nossas cronologias feitas de escritos e instantes;
proscritos significantes...

Indecisões em ponto e vírgula.

Eu olho pras pessoas em termos universais e fico com saudade da tua face. É um tipo meio bobo de pensamento-ideamento, não é?

Talvez, ou só, só - que
o que mais me incomoda
é projetar interesse
ou a idéia de interessante
o Tempo todo.

Vez ou outra, tanto faz;
Tudo em desejo é.
um fechar de olhos, Mesmo.

E as palavras só te tocam mais fundo
por onde os teus olhos já navegaram,
num cais aleatório que abriga naufrágios,
algo como um ponto...
em que ambos são;

Estranhos e estranhas razões,
em dimensões
que algo parecem
entranhas e labirinto,
que nem sempre traduzem
perspectiva em realidades.

Desejos padecem de excessos,
exceto quando você sabe
inexoravelmente o que quer.
E se algo inda transmuta tuas palavras,
é porque você se permite, ocasionalmente,
trapacear ao destino os caprichos
dessa tua curiosidade sem fim.

Pois é quase fúnebre se ver
com olhos de poucas palavras;
E se há de ser destas o motivo
De um sorriso mesclando-se
Em recordações e idéias
que nos perfazem enquanto leitores,
eternos viajantes das mais diversas cronologias,
que aqui elas se perpetuem em reticências...

Universo

O ponto é só que o tempo vai passando
E o gosto dos beijos imaginários
Trespassa a necessidade dos reais,
Tornando-se apenas lembrança ocasional,
Um algo-alguém que está lá,
simplesmente flutuando na memória,
Em eterna expectativa,
E ainda sem preocupar tanto...

Pessoas são complicadas,
E eu sou bastante também,
Então ocasionalmente os caminhos se batem
E os olhos se cruzam, e as semanas passam
E tudo às vezes parece uma espécie de sonho,
Ou uma questão de momento...

O único porém é que a gente tem uma tendência
De querer eternizar esses momentos,
Principalmente quando se olha pra um alguém
Que a gente gosta absurdamente,
E daí vem as reflexões,
os pensamentos,
as saudades...
Tudo em antecipação,
Como que vendo esboços da própria
História, antes dela mal começar.

E essas saudades que não deveriam ser,
Nada além de olhares,
Que não deveriam chegar
Ao ponto das palavras,
Que se tornariam pinturas
De idéias em gestação,
Um tanto criativas e
Quase exponenciais...
Cá se tornam só poesia
Boba, que fica aqui
Pensando em ir
Te procurar, te achar
E ficar batendo papo
Até o dia de hoje
transladar o próximo
em outro, e outro, e mais outro....

E então parecer aos nossos olhos universais
que o sol deu de fato uma volta na terra,
sem que os outros planetas percebessem;
quando tudo na verdade se resumia a Gaia,
brincando de roda com Apolo.

Movimento estacionário

Vez ou outra a gente pensa
Em algo como evocar
uma menina, a observar
as ondas de reflexo
do mar dos pensamentos
através duma janela de vidro,

Espelhando sentimentos
em tempos ainda não delineados,
por uma atmosfera de palavras
que vê o vento a deslizar,
úndivago, pelos olhos e cabelos
dessa mesma menina

Que exclama baixinho,
Em pensamentos
E palavras não ditas:
"Uau"

E olha pro céu e diz:
"Você criou esse agora?"

E eis que os sonhos dela
Parecem se tornar oceano,
Seus olhos a refletirem a saudade
Desses dias de imaginária liberdade,
Desses momentos etéreos em que ela
Se desligava dos problemas do mundo
E seus olhos pareciam abrigar
Aquele azul além das janelas de vidro,
Em doces e salgadas porções de infinito,

"Enquanto ela segue pela orla de Salvador,
os ônibus lotados, às sete da manhã."