terça-feira, 3 de janeiro de 2012

A maçã de alguém

Quando vagueias pela noite,
Os passos te levam a destinos
Dos mais inusitados.
Quando circulas entre outros
São estes os que te miram,
Que te marcam, que te contam
Em histórias de sussurros...

Pois escutas agora,
Sê táctil pra mim
Assim um instante,
Te entrega e depois
Entrega-te e confessa.

Excitas e falas
Do que não lhe basta,
Do que sentes falta
Do que não tens
E te perturba o sono,
As pernas, as coxas,
O corpo todo.

Mas a confissão veio antes,
As palavras, as hesitações,
E eu que as calei
Em segundos diminutos;
E logo depois voltei aos círculos.

Tanto faz, eu sei,
Assim, pra partes de mim.
Mas se és só um dia, fuga e memória,
Isso não significa não serdes poesia.


domingo, 16 de outubro de 2011

Diabulus y el Tiempo de las lecturas

Estranho, estranha,
Estar, ao teu lado estar
E derreter e derreter
Te querer em derreter,
Assim perto e perto e súbita;

Estranhas, estranho
Você-você
Ao correr e correr,
Me ver
E sorrir ao sorrir
Escrever-me
Num fitar, de olhos .

Estranho, estranhas
O hesitar demais falar
De só silêncios,
Fingir desperceber
Teus Olhos-Fogo-e-Âmbar.

Estranharia
Guardar-me-entregar
Em versos, bobos-bobos, os versos
Desses sem fim nem começo nem destino certo,
Que não te trazer pra mais perto.

Estranho serias, Sereia, serás
Em começar ao te reler,
Pois os começos sempre os começos
Tocam linhas de puríssima Inexatitude .
E o tempo é contratempo,
Desculpa, compasso, ilusão.
E a tua saudade arde, e a tua rima queima.
E esse silêncio me consome, e eu quero essa certeza,
Em certa incerteza eterna e perene passageira-estrangeira...
De um só sorriso teu ao ler estas palavras e saber que são mais que tuas.
São você e nada mais.










sábado, 24 de setembro de 2011

Papiro e Ampulheta

"Os textos são pessoas,
Os poros e vozes que vazam
Nas falas e no toque dos papéis
Que encenamos neste palco"

Uma pergunta:
Quem é você?

"O te achar por acaso
Por entre essas areias de Cronos,
O toque das tuas mãos
Nas bordas da noite."

Despertas dos devaneios
E cuida desses teus anseios cálidos,
Controla mas nem tanto
Teus impulsos mais súbitos,
Freyja, teus instintos
Mas não essa pulsão.

"Se são esses grãos de areia
Que te envolvem,
Se são esses teus passos
Que te voltam em praias já nem tão desertas.
Se são esses teus sonhos que se desenham
Nas pegadas da mais improvável realidade"

Deserto sou eu, decerto,
Por certo, Poeta.

"Desertei da saudade pra te encontrar
Só, no tempo dos tempos
Que não se tocam."

Desertastes das palavras e dos versos,
Dos fragmentos, das respostas.
Até o último grão,
Até o último grão!
Dos fragmentos, as respostas,
Dos versos, as palavras...

"Dos desertos que se findam em oásis,
Dos pergaminhos em histórias,
Dos sonhos submersos que transbordam
Nas marcas mútuas que cravamos na pele."

domingo, 11 de setembro de 2011

Basia me



Como condensar experiências em palavras? Vez ou outra me pergunto sobre os que procurei, aqueles que recusei, os que vieram e cá ficaram cristalizados na memória, ou mesmo os que me foram roubados. Vez ou outra me pergunto sobre aqueles que viajei justamente para não encontrar, pois de tão idealizados chegavam a quase tocar a eternidade. Vez ou outra bate aquela vontade de voltar para um único dia transitório e geográfico, eis que lhe extrãno mais que tudo. O tempo passa e parece que mil fragmentos de mim vão se desprendendo pouco a pouco em memórias, em histórias a serem contadas ou ao menos traduzidas nessas linhas que desafogam e conectam. Os lábios perpassam tantas dessas idéias e pulsões e silêncios que pacto e proximidade os tornam unos e o que subexiste são intensidades...

Pois vez ou outra me encontro aqui, os olhos fechados aos que me entrego em-não-prever e fazer das tuas surpresas o meu bálsamo.


domingo, 7 de agosto de 2011

A leitura poética












Na metade do dia

Em um círculo na beira da praia

Sóbrio.

O suor escorre por meus braços

Uma gota de suor na areia

Eu a pressiono com um dedo.

Moedas vermelhas, dinheiro de sangue

Ô mô pai devem pensar que amo muito tudo isso

Mas é só para o pão e a cervejinha e o aluguel

Dinheiro de sangue

Tenso malditos piolhos sinto-me mal.

Mendigos ato-falho, falhando

Uma mulher se levanta,

Atravessa porta-afora

Bate a porta.

Um poema imundo

Já me disseram para não ler poemas assim

Aqui.

Muito tarde.

Algumas linhas se embaçam aos olhos,

Eu leio

Tiritando

Malditos piolhos.

Ninguém escuta minha voz

E digo

É isso, desisto,

Está tudo acabado.

E mais tarde no quarto

Com Scotch e cerveja:

O sangue de um covarde.

Deve ser esse então

O meu destino:

Escrafunchar os centavos dos pequenos corredores escuros

Em que releio poemas de que há muito me cansei.

E costumava eu pensar

Que os homens que dirigiam ônibus

Ou limpavam latrinas

Ou eram assassinados em becos

É que seriam idiotas.

domingo, 24 de julho de 2011

Ensaio
















As portas abertas de Outono trincaram no dia em que resolvera sair de casa; não de uma, nem de todas. O vendaval que iria desterrar as raízes de seus passos se insinuou de leve na beira da escada imaginária, daquelas que nos conduzem solícitas em suas falsas geometrias de pintores calados.

As vozes e cores se mesclavam aos ruídos externos, um tom cinza claro de folhas que caem em adeus e perspectiva. Custódia, o impacto singular de se perder aos poucos por esse mundo, de se ver esvair assim quase sem marcas - o peso de olhar para esses olhos mudos que te seduzem, azuis ou verdes assim-sem-cor, que tudo desbota enquanto você guarda esse silêncio-grito-esgaçado-flor de alguém que lhe espera a alguém que lhe traduz.

Inexorável, a apatia da incompreensão. Ela nos devora e consome e insone saliva seus hábitos de fome, seu hálito triste de folhas-secas-sem-amor que só sabem não-voltar, mas que já não sabem onde ir. Pois as gravidades Newtonianas do destino só se negam diante de tornados, eis que as folhas negras queimam em rituais e rodopios a salgar o diabo das recordações.

As recordações! Não fosse elas, você não sofreria processos - já nasceria assim eternamente criança com face de careta-grudada em janela de vidro, sempre a observar e idealizar as outras por entre o vislumbre das fábricas Wonka, corroendo e sonhando por dentro enquanto tudo ao seu redor começaria a flutuar...

“E tu não tens porque agradecer as minhas palavras quase-mudas ou a compreensão sistêmica calejada de nervos e amores. Basta me permitir o silêncio ou suspiro de te guardar e proteger assim, ao tempo de um abraço.”

“...mas não, o mundo se cala e ninguém sabe nem-deonde-nem-dequando-ou-porquê de você ir desvivendo assim aos poucos, de leve, carregando apenas o peso das cobranças sem nexo de todos que não te enxergam. “

“E não sabes tu que penso em ti quando tu te somes e divago assim ao meio da noite por qual destino e viagem perambulas? Que anseio por te ver mesmo que assim tão súbito e sabendo tão pouco e curioso pelos convites sutis dos teus olhos-quase-poentes?”

sábado, 9 de julho de 2011

Horizonte
















"To say what's in my heart
Sitting there by your side
Anyplace, anytime, anyhow."

O teu delinear
Me escapa em sutileza;
Os contornos de solidão
A se perder em meus traços...

Inversos.

Teus olhos rasgados,
As minhas asas em trapos,
O palavrear dos incêndios
A nos abarcar em chamas.

Os passos.

Essa urgência
Que nos incinera
Por dentro,
E aos poucos.

Tua voz.

Teu jeito de sorrir
Que me faz acreditar
Ser talvez passageira
A melancolia oriental
Dessas saudades assim,
De súbito e táteis
E quase-tão-exatas.

Espaço, milímetros.

Vício em poesia,
O café elétrico
Das tardes
Que se lhe escrevem
Bem aqui ao meu lado...

Tuas costas.

A câmera desfoque,
Os gestos trêmulos
Das línguas que se descrevem
Para além das palavras.

Silêncio, o teu.

A face oblíqua da noite
A escorrer em teus cabelos.
O desdobrar desse roteiro
Que descubro e reinvento
Por detrás de meus óculos.

Paraíso, o meu.

No sutil momento
Em que por acaso
Você lê,
Nos meus lábios
O contorno dos teus.