sábado, 24 de setembro de 2011

Papiro e Ampulheta

"Os textos são pessoas,
Os poros e vozes que vazam
Nas falas e no toque dos papéis
Que encenamos neste palco"

Uma pergunta:
Quem é você?

"O te achar por acaso
Por entre essas areias de Cronos,
O toque das tuas mãos
Nas bordas da noite."

Despertas dos devaneios
E cuida desses teus anseios cálidos,
Controla mas nem tanto
Teus impulsos mais súbitos,
Freyja, teus instintos
Mas não essa pulsão.

"Se são esses grãos de areia
Que te envolvem,
Se são esses teus passos
Que te voltam em praias já nem tão desertas.
Se são esses teus sonhos que se desenham
Nas pegadas da mais improvável realidade"

Deserto sou eu, decerto,
Por certo, Poeta.

"Desertei da saudade pra te encontrar
Só, no tempo dos tempos
Que não se tocam."

Desertastes das palavras e dos versos,
Dos fragmentos, das respostas.
Até o último grão,
Até o último grão!
Dos fragmentos, as respostas,
Dos versos, as palavras...

"Dos desertos que se findam em oásis,
Dos pergaminhos em histórias,
Dos sonhos submersos que transbordam
Nas marcas mútuas que cravamos na pele."

domingo, 11 de setembro de 2011

Basia me



Como condensar experiências em palavras? Vez ou outra me pergunto sobre os que procurei, aqueles que recusei, os que vieram e cá ficaram cristalizados na memória, ou mesmo os que me foram roubados. Vez ou outra me pergunto sobre aqueles que viajei justamente para não encontrar, pois de tão idealizados chegavam a quase tocar a eternidade. Vez ou outra bate aquela vontade de voltar para um único dia transitório e geográfico, eis que lhe extrãno mais que tudo. O tempo passa e parece que mil fragmentos de mim vão se desprendendo pouco a pouco em memórias, em histórias a serem contadas ou ao menos traduzidas nessas linhas que desafogam e conectam. Os lábios perpassam tantas dessas idéias e pulsões e silêncios que pacto e proximidade os tornam unos e o que subexiste são intensidades...

Pois vez ou outra me encontro aqui, os olhos fechados aos que me entrego em-não-prever e fazer das tuas surpresas o meu bálsamo.


domingo, 7 de agosto de 2011

A leitura poética












Na metade do dia

Em um círculo na beira da praia

Sóbrio.

O suor escorre por meus braços

Uma gota de suor na areia

Eu a pressiono com um dedo.

Moedas vermelhas, dinheiro de sangue

Ô mô pai devem pensar que amo muito tudo isso

Mas é só para o pão e a cervejinha e o aluguel

Dinheiro de sangue

Tenso malditos piolhos sinto-me mal.

Mendigos ato-falho, falhando

Uma mulher se levanta,

Atravessa porta-afora

Bate a porta.

Um poema imundo

Já me disseram para não ler poemas assim

Aqui.

Muito tarde.

Algumas linhas se embaçam aos olhos,

Eu leio

Tiritando

Malditos piolhos.

Ninguém escuta minha voz

E digo

É isso, desisto,

Está tudo acabado.

E mais tarde no quarto

Com Scotch e cerveja:

O sangue de um covarde.

Deve ser esse então

O meu destino:

Escrafunchar os centavos dos pequenos corredores escuros

Em que releio poemas de que há muito me cansei.

E costumava eu pensar

Que os homens que dirigiam ônibus

Ou limpavam latrinas

Ou eram assassinados em becos

É que seriam idiotas.

domingo, 24 de julho de 2011

Ensaio
















As portas abertas de Outono trincaram no dia em que resolvera sair de casa; não de uma, nem de todas. O vendaval que iria desterrar as raízes de seus passos se insinuou de leve na beira da escada imaginária, daquelas que nos conduzem solícitas em suas falsas geometrias de pintores calados.

As vozes e cores se mesclavam aos ruídos externos, um tom cinza claro de folhas que caem em adeus e perspectiva. Custódia, o impacto singular de se perder aos poucos por esse mundo, de se ver esvair assim quase sem marcas - o peso de olhar para esses olhos mudos que te seduzem, azuis ou verdes assim-sem-cor, que tudo desbota enquanto você guarda esse silêncio-grito-esgaçado-flor de alguém que lhe espera a alguém que lhe traduz.

Inexorável, a apatia da incompreensão. Ela nos devora e consome e insone saliva seus hábitos de fome, seu hálito triste de folhas-secas-sem-amor que só sabem não-voltar, mas que já não sabem onde ir. Pois as gravidades Newtonianas do destino só se negam diante de tornados, eis que as folhas negras queimam em rituais e rodopios a salgar o diabo das recordações.

As recordações! Não fosse elas, você não sofreria processos - já nasceria assim eternamente criança com face de careta-grudada em janela de vidro, sempre a observar e idealizar as outras por entre o vislumbre das fábricas Wonka, corroendo e sonhando por dentro enquanto tudo ao seu redor começaria a flutuar...

“E tu não tens porque agradecer as minhas palavras quase-mudas ou a compreensão sistêmica calejada de nervos e amores. Basta me permitir o silêncio ou suspiro de te guardar e proteger assim, ao tempo de um abraço.”

“...mas não, o mundo se cala e ninguém sabe nem-deonde-nem-dequando-ou-porquê de você ir desvivendo assim aos poucos, de leve, carregando apenas o peso das cobranças sem nexo de todos que não te enxergam. “

“E não sabes tu que penso em ti quando tu te somes e divago assim ao meio da noite por qual destino e viagem perambulas? Que anseio por te ver mesmo que assim tão súbito e sabendo tão pouco e curioso pelos convites sutis dos teus olhos-quase-poentes?”

sábado, 9 de julho de 2011

Horizonte
















"To say what's in my heart
Sitting there by your side
Anyplace, anytime, anyhow."

O teu delinear
Me escapa em sutileza;
Os contornos de solidão
A se perder em meus traços...

Inversos.

Teus olhos rasgados,
As minhas asas em trapos,
O palavrear dos incêndios
A nos abarcar em chamas.

Os passos.

Essa urgência
Que nos incinera
Por dentro,
E aos poucos.

Tua voz.

Teu jeito de sorrir
Que me faz acreditar
Ser talvez passageira
A melancolia oriental
Dessas saudades assim,
De súbito e táteis
E quase-tão-exatas.

Espaço, milímetros.

Vício em poesia,
O café elétrico
Das tardes
Que se lhe escrevem
Bem aqui ao meu lado...

Tuas costas.

A câmera desfoque,
Os gestos trêmulos
Das línguas que se descrevem
Para além das palavras.

Silêncio, o teu.

A face oblíqua da noite
A escorrer em teus cabelos.
O desdobrar desse roteiro
Que descubro e reinvento
Por detrás de meus óculos.

Paraíso, o meu.

No sutil momento
Em que por acaso
Você lê,
Nos meus lábios
O contorno dos teus.

domingo, 26 de junho de 2011

Box











I'm not much of a poet,
I'd say
If I let you escape.

I'm not much of a poet
If u who are my dearest reader
Will not get a chance
To contemplate my inner self,
This true recollage of fragments
I try to alter, I try to fix
But there ain't no fixing
In the middle of the night
Without creation.

I'm not much of a poet
If I only want some hugs
Or a couple old words
to exchange without
Your loving smile,
The sweetest I could
Ever dream about.

I'm not much of a human,
If I cannot change,
And I might be able
To still seize a chance.

I'm not much of a man
If I travel the world
South and around
Just to find you
And keep on hiding
everything behind
These blue pale eyes
of yours, and mine.

I'm not much of a friend
If I consciously try
To erase all the good memories
You had of me, and I do that
Again and again and again,
And I don't put a stop
To this acting like
My own lonely God.

I'm not much of a writer
If I don't share my experiences
With those I am passionate about.
I don't feel myself fit for the reading
Of actions or pretensions of any kind.

If I want your hearing,
It's just for the sake
Of voicing your soul
And reminding you
How much I care
About us
and all the moments
You have spent
Thinking of me.

My story only exists
within your memories,
After all and the sands.
And I really want them
To shine like the crazy diamonds
They are all meant to be.

For you who are
The dearest listener
Of my silences and choices,
And who still believes I can pull
A trick or two
Out of Pandora's .

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Sparkling eyes




















Consciente, inconsciente,
A tempestade que se anuncia
Cerebral, visceral.
As partículas, sólido-luz
Onda arrebatadora que seduz.
A alma em bordas lunares,
Os frascos de sol e trigo,
A sacerdotisa do dia
A se partir em meios
Fragmentos, meridianos,
Lunetas, caleidoscópios.

Esse olhar desfoque,
Que te vê e te induz.
Esse descompasso
Entre viver e não saber,
Surpreender, perceber..
As cores da Lua
Que a gente veste
De súbitos e vermelhos
E eclipses em constantes.

O apagar de estar ao teu lado
E não verbalizar, por assim
Me encontrar, tão distante.
As faíscas traunsentes
A magnetizarem-se em ti,
Elétrica proximidade.

Insensata essa liberdade
De te falar em silêncios...
A urgência dessas palavras
Que não surgem dos lábios.
A imanência destas outras,
Cravadas em versos inquietos.
As tuas leituras a relampejar
O que teus olhos já sabem:

Em devaneio e desejar,
Ecos de não escolher
E talvez te despertar...