segunda-feira, 29 de abril de 2013

Terpsícora


Sabe, tem vezes
Que eu queria
Escrever
Todo amor
Do mundo
Nessas palavras
E entregar
Pra você.

Não queria ter
Versos bonitos
Nem idealizados,
De escrever quem
Não se é.

Queria devorar
A cinética
Da tua poesia
Num movimento assim,
De deixar
As linhas
Perplexas.

Que das cores dessa vida,
Foi da tua pele
A que eu mais gostei.

Que de todas as flores
Do mundo eu quis você,
Não sei, não sei
Ao certo porquê.

Que há um descompasso
Um tremor,
Neste reino
De meu corpo.

E de todas as letras
Que dançam nos silêncios
Da leitura, foi a tua
A quem mais desejei.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Desata

Aprende a se perder
Um instante.
Para, contempla
Todas essas cartas
Escritas de entrelinhas.

Desfaz os anos,
Relaxa os ombros,
Deixa todos esses anjos
Escorrerem de si.

Pega a pele
Desta vida,
E os sorrisos
Que são mais
Que qualquer
Abandono.

Não faz mais
Assim,
De deixar
Esse teu amor
De ti
Se esconder.

Aprende, menino,
Com essa voz doce
Que te toca as saudades
E te traz um sorriso
No rosto.

Guarda as palavras,
O tempo bom, as flores
De cada minuto
Dessa paz
Que a tua boca
Ensinou a ter.

Ergue a cabeça
Ao som da minha voz,
Lê e desperta, homem,
Que as verdades
Da alma
Só existem
Ao cruzarem-se os olhos.

Perdoa, aqui,
Aos teus pecados
Mais próprios.
Sê humilde e aceita
A tua humanidade
De palavras errantes,
Que erram em demasia
E navegam distantes.

Afrouxa os nós,
Deixa o tempo
Encontrar
Nossas respostas
E curas.

Deságua em si
Com teus olhos de mar,
E nunca mais
Deixa a vida te passar
Sem lhe trazer
A verdade.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

De lá pra cá



A cada dia mais
A gente desaprende
A ler em versos
De sol e lua,
A cada dia
A gente desaprende
A se falar um pouco mais,
A se lembrar mais um tanto,
A cada dia
Um pouquinho
A gente aprende
A desaprender
Aquilo
Que um dia
Disse,
Que o tempo
Faz voar,
Que as lágrimas
Dizem sem saber
Pra onde ir,
Que as cores
Das pinturas
Se revezam
Nos olhos,
Nas paredes,
Na pele da gente
Que todo dia
Se consome de sonhos.

A cada dia um pouquinho,
A voz que já não fala,
O coração que bate torto,
O toque das mãos do ar,
O abraço que era oásis,
A areia das recordações
Que escapa suave
Pelo canto da sereia,
A maré que bate na praia
Quando você sabe
Aqui dentro desse 'mar
Que nada foi de leve.

A cada dia
Um verso, uma raíz,
Uma parte de mim
Que vira flor.
A cada dia
A minha benção
Ao me distrair
Por esses jardins
De recortes,
De não saber
Pra onde ir,
Pra que ficar,
Porque partir.

De não saber dizer
De todos esses silêncios
Que a gente carrega nos olhos,
Porque só tua voz insiste em não calar.
De não saber reescrever
Esses corações bobos da gente,
Que já não sabem mais parar de amar.
De não saber, mais que tudo,
Como se escreve esse poema...
 
Que a cada dia
Parte de mim
Se desaprende
Em você.

Que a cada dia
Parte de você
Se desprende
De mim.
 


terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Tempo bom


Odaiá, minha memória,
Meu oceano.
Deixei as cartas
Ao teu colo
Nas ondas
Calmas.

Nadei de um lado
Ao outro do fim da tarde,
Na praia de todos os santos.

Achei um barquinho,
Abri meus braços ao sol!

Fiquei lá a navegar
Em meus pensamentos,
Em minhas saudades,
Em tuas águas, minha flor,

Que levantei até a borda do mar,
E mergulhei nas águas de Iemanjá

E fui logo a escrever
Minha história
Na areia,
Que sou eu
A quem escrevo
Quando as palavras
São espelho de céu.

Que o meu sorriso
um dia
eu encontrei assim,
deitado na grama,
ao olhar aquelas estrelas
Nos olhos destes versos.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Da carta aérea

- Ando tão triste, Zéfiro. Meus versos doem, minhas águas estão aqui a marulhar assim, baixinho. Em meu tempo criei uma tempestade de vozes, chovi um mar de silêncios, hoje caminho entre as luzes da cidade. Viajei mais que sete mil léguas nesse mundo, vi rostos e encantos na borda do universo, ouvi os prantos, os cantos da savana a se confundirem em exótica simetria. Estou aqui, não sei bem onde, em que escrevo, em que disserto. Os sorrisos me são incertos. Não visto eles nessa época, não compreendo as pessoas. Meus olhos estão brancos, minhas folhas vermelhas. Ando triste, Zéfiro, triste quase tristinho que minhas palavras já saem assim quietinhas e quase a gente não se escuta. Não sei bem onde foi que ouvi que o tempo muda todas as vozes, que se comprimem aqui no meu peito, que se escondem entre aquelas palavras detrás dos olhos, coisas de sibila ou coisas de Apolo. Minha carta só existe em letras de sol, meu amigo, e por isso a confio a seus dedos suaves. Saravá, e que as nuvens me contem sem pressa de seu destino

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Anjo


Debaixo d'água,
As tuas asas molhadas,
A tua face corada,
O teu coração
Que palpita.

De pés descalços,
Os olhos fechados,
Meus braços abertos...

Tudo sempre tão perto
Entre céu e oceano,
As caravelas, o começo.
Toda jornada um princípio,
Todo sonho um passo,
Um precipício.

As aventuras inesperadas,
A estrada que nos consome,
O fim da linha do horizonte,
O céu que desatina
Tuas idéias aceleradas
No instante da palavra;
As nuvens,
Teu pertencimento.

Eu cresci assim,
Sem dar conta,
Meus muitos livros
Se reescrevendo;
Te achei na altura
De um jardim,
Acompanhei teus passos,
Ouvi teus cânticos
Enquanto as colunas de Babel
Se desfaziam uma a uma.

Falei da tua língua,
Provei dos teus lábios,
Podei tuas queixas e dores
E te deixei esta herança,
Um sonho, uma flor, uma canção:
A um toque do sol.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Um passo, um tropeço, um espaço


O espelho dos espelhos,
O verso, a palavra.
Toda a tua busca
Que se cala na alma,
Todos os teus anseios
Ao despertar dos sentidos.
Os olhos que não se me escapam,
Os gestos devaneios,
Esse riso ao teu lado,
As ruas dos destinos
Que se nos atravessam
Não disfarças,
As vozes do tempo
Que sequer vivemos.
As linhas juntas,
O instante ao contrário.  
Conto as horas
Do avesso,
Conto os dias
De sol das chuvas
Que o verão me trouxe,
Conto as chamas e fagulhas
Que o vento assobia.
Visto as roupagens do silêncio,
Encarno a terra comida pelas beiradas,
O chão seco do que não é sertão e se alumia.
Nefertari se esconde,
As esfinges lhe consomem,
As três luas de Plutão
Estão sem órbita.